A inimiga que mora dentro de nós

A inimiga que mora dentro de nós

Sobre a guerra que as mulheres travam contra si mesmas, e o que os trânsitos actuais têm a dizer sobre isso.

O que aconteceu e o que isso revela

Se ainda não ouviste falar de Kristin Cabot, o resumo é este: foi filmada num concerto do Coldplay num momento íntimo com o seu chefe. O vídeo tornou-se o mais visto de 2025. Seguiram-se mais de cinquenta ameaças de morte, a sua morada divulgada numa estação de rádio, paparazzi a perseguí-la durante semanas, e um grupo de mulheres adultas a cercar o seu carro no local de trabalho do filho adolescente, a gritar com ela enquanto o rapaz assistia.

O chefe, o CEO Andy Byron, demitiu-se discretamente. Não foi assediado. Não teve o corpo dissecado online. Não teve os filhos aterrorizados. Simplesmente seguiu em frente para o próximo capítulo.

Acontece que Kristin já estava separada do marido, a viver em casas separadas, a planear o divórcio de forma amigável. O marido estava no mesmo concerto naquela noite, com outra pessoa. Apoiou-a na época e apoia-a agora.

Nada disso importou.

E o que mais perturbou Kristin Cabot, segundo ela própria, foi que a maior parte das reacções cruéis veio de mulheres.

Não devia surpreender-nos. E o facto de ainda nos surpreender diz exactamente o que precisamos de examinar.

Uma sexta-feira de Vénus para falar do que ninguém quer falar

Hoje é sexta-feira, o dia de Vénus. E precisamente por isso vou falar de algo que não é fácil de dizer, que faz perder seguidores, que activa defesas imediatas, e que por isso mesmo raramente é dito com a clareza que merece.

Vou falar da misoginia internalizada. Do patriarcado enterrado tão fundo dentro de cada uma de nós que sem trabalho consciente e deliberado o que vai continuar a existir é negação, reactividade, ou o fingir que nem se sabe do que se fala.

Não é um tema confortável. Não é um tema que gera likes fáceis nem que faz sentir bem no imediato. É um tema que toca numa ferida colectiva que o feminino carrega há gerações e que continua a manifestar-se de formas que nos deveriam perturbar profundamente, a começar pela forma como tratamos outras mulheres quando tropeçam em público.

Já perdi mais de 56 pessoas só na newsletter por falar disto. E digo-vos com toda a honestidade: provavelmente eram exactamente as pessoas que mais precisavam de continuar a ler e de trabalhar em si mesmas sobre este tema. Porque a primeira reacção a um espelho que mostra algo que não queremos ver raramente é gratidão. É fuga.

Se ficaste, obrigada. O que se segue é para ti.

Não é a primeira vez. Não vai ser a última.

Janet Jackson não arrancou o próprio figurino no Super Bowl. Justin Timberlake fê-lo. Ela foi banida das rádios e criticada durante anos. Ele ganhou dois Grammys na mesma semana.

Monica Lewinsky era uma estagiária de 22 anos. Bill Clinton era o Presidente dos Estados Unidos. Ela tornou-se motivo de chacota para uma geração, com os julgamentos mais severos vindos de mulheres. Ele manteve a presidência, a fundação, o legado.

Britney Spears foi humilhada publicamente pelo ex-namorado em todos os talk shows americanos, criticada por mulheres, destituída da própria autonomia legal durante mais de uma década. Ele fez filmes e ganhou prémios.

O padrão não é acidental. É sistemático e sistémico. E o que o mantém activo não são apenas os homens, lamento. Somos nós. Mulheres a fazermos o trabalho que o sistema precisa que façamos para se manter a funcionar e bem vivo.

Se isso activou uma reacção de defesa em ti, fica com essa reacção. Ela é informação. Voltamos a ela mais à frente.

A psicologia por baixo do comportamento

Quando uma mulher ataca outra mulher com uma intensidade que não corresponderia ao mesmo comportamento num homem, o que está realmente a acontecer não é julgamento moral. É activação de ferida.

A misoginia internalizada não é uma escolha consciente. É o resultado de décadas de absorção de uma cultura que ensina, de formas explícitas e implícitas, que as mulheres são menos confiáveis, menos estáveis, menos dignas de benefício da dúvida do que os homens. Internalizamos essa mensagem antes de termos qualquer capacidade crítica para a questionar. E depois reforçamo-la umas contra as outras com uma ferocidade que raramente dirigimos ao sistema que a instalou.

Por baixo da misoginia internalizada está frequentemente algo mais simples e mais doloroso: carência emocional não resolvida. A mulher que ataca outra mulher por aquilo que veste, por quem ama, por como aparece no mundo, raramente está a falar sobre a outra. Está a falar de si mesma. Das partes que foram suprimidas porque eram demasiado, demasiado livres, demasiado visíveis, demasiado incompatíveis com o que lhe foi ensinado que uma mulher respeitável devia ser.

O que não foi permitido em si mesma, o desejo que foi envergonhado, a liberdade que foi punida, a visibilidade que foi silenciada, projecta-se no exterior como julgamento da outra que o tem ou que parece tê-lo. Não é inveja no sentido simples. É o eco de uma ferida que ainda não foi olhada directamente.

Quando o amor foi escasso na infância, quando a aprovação foi condicional, quando a identidade foi construída sobre a comparação em vez de sobre o valor intrínseco, o adulto que emerge tem o sistema nervoso calibrado para a competição onde poderia haver aliança. Para o ataque onde poderia haver reconhecimento. Para a destruição de outra mulher onde poderia haver a pergunta: o que é que esta situação me está a mostrar sobre o que ainda não resolvi em mim mesma?

A investigação confirma o que a psicologia evolutiva há muito descreve. Mulheres reagem com maior agressividade a outras mulheres que parecem sexualmente disponíveis ou socialmente visíveis, exactamente porque o sistema aprendeu que a liberdade de outra mulher é uma ameaça à sua própria posição. Esta não é uma característica inerente ao feminino. É o resultado de séculos de escassez imposta: de amor, de recursos, de reconhecimento, de espaço para existir plenamente.

O patriarcado que vive dentro de nós

Esta é a parte mais difícil. E é precisamente por isso que raramente é dita com honestidade.

O patriarcado não precisa de homens activos para se perpetuar. Ele tem a sua disposição demasiadas mulheres que fazem a sua manutenção. Que punam outras mulheres por excederem os limites do que é aceitável. Que reforcem as regras de respeitabilidade que o sistema criou exactamente para manter as mulheres subordinadas, distraídas umas com as outras, e incapazes de se voltarem colectivamente contra o que as oprime.

Cada vez que uma mulher ataca outra mulher por como aparece, por com quem se deita, por quanto espaço ocupa, por ser demasiado visível, demasiado sexual, demasiado livre, demasiado bem-sucedida, ou qualquer outra coisa, está a fazer gratuitamente o trabalho que o sistema precisa que seja feito. Está a ser a guardiã das fronteiras que mantêm todas as mulheres no lugar que lhes foi designado.

E o mais perturbador é que fazem isso a pensar que estão do lado certo. Que está a defender valores. Que está a proteger algo. Quando na realidade está a proteger o sistema que a oprime a ela tanto quanto à mulher que está a atacar.

Os homens, que competem por poder, dinheiro e status todos os dias das suas vidas, descobriram algo que nós ainda não descobrimos colectivamente: atacar publicamente outro homem é uma estratégia perdedora. Protegem o grupo porque perceberam que proteger o grupo protege o indivíduo. Quando um deles está sob ataque, fecham fileiras e esperam que passe.

Nós não fazemos isso. E enquanto não fizermos, continuaremos a brigar por migalhas enquanto eles permanecem sentados à mesa.

O que Vénus em Touro e Marte em Carneiro têm a dizer sobre este momento

Não é acidental que este tema esteja tão activo precisamente agora.

Vénus está em Touro, no seu signo de domicílio. Marte está em Carneiro, também no seu signo de domicílio. Os dois planetas pessoais que regem o feminino e o masculino na sua expressão mais arquetipal estão ambos na sua forma mais característica e mais intensa simultaneamente.

Esta configuração amplifica tudo o que tem a ver com a guerra dos sexos, com as disfunções nos papéis de género, com a tensão entre o que o feminino é na sua natureza mais genuína e o que foi ensinado a ser para sobreviver numa cultura que o domesticou, controlou e dividiu contra si mesmo.

Vénus em Touro na sua expressão mais integrada é o feminino que conhece o seu valor sem precisar de o provar através da destruição de outra. Que tem recursos internos suficientes para não experienciar a liberdade de outra mulher como uma ameaça à sua própria segurança. Que pode ocupar o seu espaço completamente sem precisar de reduzir o espaço de outra para que o seu pareça maior.

Na sua sombra, Vénus em Touro é o feminino que usa os valores tradicionais como arma de julgamento. Que usa a respeitabilidade como critério de exclusão. Que protege a sua posição através do controlo da liberdade de outras mulheres.

A quadratura de Vénus em Touro com Plutão em Aquário que aconteceu recentemente expôs exactamente isto: os valores que se apregoa versus os valores que se pratica. As inconsistências entre o que se diz defender e o que as escolhas concretas revelam que se defende na prática. Plutão não tem misericórdia com a hipocrisia. E o que foi exposto neste período, tanto colectivamente como individualmente, é exactamente esta tensão entre o feminino que se proclama e o feminino que se vive.

Marte em Carneiro na sua sombra é a força que se vira para dentro do grupo porque o sistema verdadeiro de opressão parece demasiado grande para ser confrontado directamente. É mais fácil destruir outra mulher do que confrontar o sistema que nos ensinou a fazer isso. É mais seguro atacar quem tropeçou do que questionar por que razão o tropeço de uma mulher é punido de forma que o tropeço de um homem nunca o é.

A guerra do feminino consigo mesmo

O que a história de Kristin Cabot, e de Janet Jackson, e de Monica Lewinsky, e de Britney Spears, tem em comum não é apenas a injustiça do duplo padrão. É a revelação de algo sobre o estado do feminino colectivo que precisa de ser nomeado sem eufemismo.

As mulheres que atacaram Kristin Cabot no estacionamento não eram monstras. Eram mulheres com feridas não integradas, com patriarcado internalizado não examinado, com carência emocional que encontrou na destruição de outra mulher um canal de expressão que o sistema tornou disponível e culturalmente sancionado.

Isso não as absolve de todo do seu comportamento. Mas precisamos de olhas a Responsabilidade e compreensão das causas coexistem. Mas sem compreender as causas, a resposta ao problema fica sempre na superfície: condenar o comportamento sem examinar o que o produz a tantas dédacas. E o que o produz não vai desaparecer por condenação.

O que vai começar a mudar este padrão é o trabalho que cada uma de nós faz internamente. Sobre o que foi ensinado a acreditar sobre o feminino. Sobre o que da liberdade de outra mulher activa em nós e porquê. Sobre as partes de nós que foram suprimidas e que se projectam como julgamento de quem as tem ou parece tê-las.

É perguntar, antes de clicar, comentar, partilhar, ou juntar-se ao grupo que está a cercar o carro de outra mulher: os homens seriam julgados da mesma forma? E se não seriam, o que é que essa assimetria me diz sobre o sistema que estou a servir neste momento?

E é perguntar a pergunta mais difícil: o que é que eu, especificamente, não resolvi que me faz precisar de destruir esta mulher em particular?

Podíamos ser Kristin Cabot. Qualquer uma de nós. Quinze segundos é tudo o que é preciso para que a vida de uma mulher seja destruída pelo tribunal da opinião pública, do qual outras mulheres são frequentemente as juízas mais ferozes.

A consciência é a primeira obrigação. Uma vez que o padrão é visto não pode voltar a ser ignorado. E uma vez que não pode ser ignorado, continuar a participar nele é uma escolha.

Nós merecemos melhor do que isso. Todas nós. Incluindo as que ainda não sabem disso.

Se este tema ressoa com algo que estás a trabalhar internamente sobre o feminino, sobre os padrões que herdaste e que já não queres perpetuar, este é exactamente o tipo de trabalho que fazemos na Comunidade Moonlovers .

Voltar para o blogue